1. Os indicadores sugerem que a trajetória do CRVG é descendente há muitos anos e que a fase irreversível de seu ciclo de vida está próxima. O processo pode ser acelerado caso perca os benefícios da Lei 13.155;
  2. Nas duas últimas campanhas eleitorais, houve promessas de financiamentos, patrocínios e projetos de reformas;
  3. É tempo de escoimar o “perdi a eleição, sou contra” e tentar reverter a trajetória, com dinheiro, patrocínios e reformas estruturais.

O Ciclo Vital. É consagrado na literatura econômica que as empresas, assim como os entes dos reinos animal e vegetal, têm o seu Ciclo de Vida. O argumento aqui é que os clubes de futebol também o têm, que se assemelham ao de uma empresa, e que a fase decadente é consequência de ação ou omissão de dirigentes, conselheiros, sócios e torcedores. A partir do conhecimento da estrutura, da cultura e da situação financeira do Vasco, arguo e apresento uma ilustração gráfica, que o Vasco se encontra em fase crítica de seu Ciclo Vital e com forte tendência para entrar em zona de decadência irreversível. E que há uma chance de reverter a trajetória atual do Vasco rumo ao fim.

Nas empresas. Os autores consideram cinco, seis, sete fases da vida das empresas para compor o conceito de Ciclo Vital. Aqui apresento uma versão simplificada, com três fases, conforme a curva contínua CV da Figura I: Fase A – Criação; Fase B – Consolidação e Pico; e Fase C – Declínio. No início do ciclo se tem a arrancada (startup business), na qual apenas 10% passam à etapa seguinte, a fase de crescimento, estabilização e pico. A terceira fase é a fase do declínio, a trajetória que encerra a vida da empresa. A derrocada pode ser evitada se a empresa se reinventa, pela reengenharia, pela reestruturação, pela inovação. Essa “nova vida”, expressa pela curva tracejada CV* é o “novo” ciclo vital, iniciado em algum momento da segunda fase ou início da terceira, mas nunca em fase aguda desta. Aquelas empresas que não se reestruturam seguem na curva CV rumo à extinção. Hoje, é o caso do Vasco.

Tempos passados e tempos atuais. Para entender o momento atual dos clubes brasileiros, é preciso retroagir um pouco no tempo. No passado, a atitude dos dirigentes era de que “clube não quebra”, ante à evidência dessa possibilidade expressa por indicadores como a Dívida e o Déficit Orçamentário. No Vasco, vivia-se pelo expediente de hipotecar o futuro do Clube à taxa de 22% ao ano, cuja prática contribuiu para a acumulação de dívidas. Até 2011, imposto não era problema. A realidade mudou quando a Fazenda Nacional resolveu cobrar dos caloteiros. E, ante a realidade fera do bloqueio das contas correntes dos devedores, o governo resolveu, em 2015, com a Lei 13.155, dar um grande alívio às finanças dos clubes, reduzindo a dívida e o serviço da dívida junto à Receita Federal. No caso do Vasco, um dos maiores beneficiários da Lei, a redução da dívida foi de 2/3. Mas a Lei prevê a suspensão do benefício se o clube não cumprir as obrigações previstas. Pode-se inferir que, nos tempos atuais, a análise do ciclo vital dos clubes não é mais elucubração teórica, pois, depois dessa lei, um clube de futebol pode quebrar. A situação do Vasco indica esse destino.

Indicadores de falência. Há vários indicadores de falência que podem ser aplicados nas análises dos clubes de futebol. Qualitativos, como o modelo de gestão, a relação do clube com a torcida (ou vice-versa) e o acesso ao Mercado de Capitais, e quantitativos, como as relações financeiras Dívida/Receita, Serviço da Dívida/Receita, Déficit/Receita e a estatística de Sócios Pagantes. Para simplificar são apresentados os números estimados para dois indicadores: Dívida/Receita (D/R) e Sócios Pagantes (SP).

O declínio do Vasco. É crucial identificar em que fase o Vasco se encontra no Ciclo. Os dados são de 2012 e 2017, mas dados anteriores, mesmo imprecisos, permitem inferir que o Vasco estava na fase de decadência, isto é, que o pico de seu Ciclo Vital ocorrera em anos anteriores a 2012. Em dezembro de 2011, quando já se tinha dados razoavelmente precisos, a Dívida Total era da ordem de R$ 380 milhões, a receita R$ 120 milhões e o número de sócios pagantes era 7.000. Essa situação é ilustrada na Fig 2 pelo ponto correspondente a V1, onde: D/R = 3,17 e SP = 7.000. O ponto correspondente a V2 é a situação em 2017: D/R = 3,8 e SP = 4.000. Ou seja, os indicadores pioraram e o Vasco desceu mais um degrau e se encontra no limite da fase crítica (área vermelho médio).

A fase de irreversibilidade. Estima-se que o Déficit deste ano seja da ordem de 50 milhões, caso não tenha havido antecipação de receitas em 2017. Nessa hipótese, o mesmo fator que evitou uma crise aguda em 2015/2016, a Lei 13.155, pode preciptar a caída para a fase irreversível (vermelho escuro), pois o Vasco não teria como cumprir as exigências impostas para manter o benefício da Lei, expressa no Art. 4.º e reforçadas pela Resolução Apfud n.º 3 de 05/03/2018, que fixa datas para o cumprimento das exigências, no caso a próxima é o dia 05 de julho. Embora a suspensão dos benefícios não seja imediata, é prudente imaginar que essa lei será cumprida, afinal trata-se de renúncia fiscal de grande monta. Nesse cenário, o Vasco caminha para um fim iminente.

Ao Vasco, tudo? A resposta à pergunta “tem jeito?” é sim. Mas, como não se deve fiar no acaso (a base revelar um talento de 80 milhões de euros), os vascaínos podem mudar a trajetória declinante do clube. Nas últimas campanhas eleitorais do Vasco, várias perspectivas foram apresentadas aos eleitores: dinheiro do Mercado Financeiro, inclusive do exterior; patrocínios junto a novas empresas; modernização do complexo de São Januário, etc. Resta renová-las e concretizá-las, em atitude de colaboração com a atual Administração. Diga-se, o que não é novidade. Em 2012 foi criado o Grupo de Apoio ao Vasco e vários vascaínos colaboraram com busca de patrocínios, empréstimos e até aval pessoal a dívidas. Ninguém daquele grupo tinha qualquer cargo na Administração do Vasco. Portanto, cabe escoimar a conduta “perdi a eleição, sou contra” e ser a favor do Vasco. Não apoiar a atual administração, com dinheiro e propostas objetivas de reformas, significa “ao Vasco, nada!”. Significa o fim do CRVG, que, não sendo um fim ao pé da letra, é até pior. É o opróbrio sem fim.

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